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Opinião

“O último adeus” de Kate Morton

Ficha técnica

Título – O último adeus

Autora – Kate Morton

Editora – Suma de Letras

Páginas – 616

Opinião

Este mês vai ser curto em leituras, sobretudo porque viajei de um calhamaço para outro. De calhamaço de 494 páginas para outro de 616. São mais de 1000 páginas reunidas em apenas duas narrativas. Daí o número reduzidinho de obras lidas. Mas caramba, que importam números e quantidades quando aterram nas minhas mãos histórias tão sumarentas como as que saem do engenho e arte de Joanne Harris e de Kate Morton? Uma ninharia, importam uma ninharia.

O último adeus é a quarta obra que saboreio da australiana Kate Morton. E tal como as suas antecessoras, esta história que percorre espaços lindíssimos da Cornualha e as ruas movimentadas de Londres agarrou-me, prendeu-me, colou-me às suas páginas e comprovou o que não precisava de mais nenhum comprovativo – as obras desta autora cumprem as minhas expectativas, melhor dizendo, ultrapassam as expectativas que já de si são sempre elevadíssimas. Quarta obra lida, quarta obra a que atribuo a nota máxima.

O mote é familiar – uma recordação, uma carta, uma herança, uma casa abandonada descoberta por acaso. Algo que sacode a vida de uma jovem e que a “obriga” a escarafunchar um passado remoto abalroado por um acontecimento marcante ou trágico. Em O último adeus, Sadie, uma inspetora da Scotland Yard, refugia-se em casa do avô, na região da Cornualha, para esquecer o que a levou a ter que ausentar-se do trabalho. Numa das habituais corridas matinais, “tropeça” num jardim e numa casa abandonados. Espreita por uma das janelas e constata que no seu interior tudo está exatamente como era há setenta anos, como se os donos tivessem abandonado a casa sem olhar para trás, sem se preocuparem em levar nada consigo. Intrigada e com o seu faro de inspetora em alerta máximo, Sadie tudo faz para descobrir o que se terá passado naquela magnífica mansão e acaba por descobrir que no dia do solstício de verão do ano de 1933, o filho do casal Edevane, um bebé de pouco mais de um ano, desaparecera misteriosamente e nunca mais fora encontrado.

Os dados estavam assim lançados para uma leitura vertiginosa, que me fez, tal como aconteceu com as outras obras de Kate Morton, avançar desenfreadamente página atrás de página, saltar sem descanso do ano de 2003 para o início do século XX, para anos como os de 1911 ou 1933, conhecer e apaixonar-me por um conjunto de personagens fascinantes e voltar a render-me aos encantos da Cornualha (espaço que habita também a obra O Jardim dos segredos), uma região que tenho mesmo que visitar. Nos nove dias em que a obra não saiu do meu lado, bastava-me fechar os olhos para empreender uma viagem que me levava para junto de personagens que iluminaram e encheram os meus dias de uma luz e de um brilho ainda mais intenso. Senti-me como mais um elemento da família Edevane, senti-me como mais uma neta de Bertie, o avô de Sadie, vi-me ao lado desta muitíssimas vezes, a vasculhar, por um lado, jornais e outras provas que desde há setenta anos estavam à espera de que alguém as consultasse e a observá-la, por outro, a ampará-la sempre que se rendia ao desespero por não conseguir desvendar o mistério da criança desaparecida e nem conseguir encontrar um rumo para a sua vida.

Pressenti desde o início que esta seria uma leitura muito especial. Não esperava outra coisa de uma obra de Kate Morton. E como podem comprovar por tudo o que referi até ao momento, os pressentimentos cumpriram-se. Não só se cumpriram como se suplantaram. A autora sabe como poucos criar o ambiente perfeito para uma experiência também ela perfeita. A atmosfera possui a quantidade exata de mistério, de encantamento, de beleza, de sedução, as personagens enfeitiçam-nos, enredam-nos para que nos apaixonemos por elas, para que sintamos por cada uma delas uma forte ligação, os espaços por onde se movimentam são imagens que nos chegam como se as estivéssemos a ver num ecrã ou ao vivo e as emoções, os sentimentos, os dramas, as alegrias, os desesperos, as tentações rematam uma narrativa que é construída de uma forma muito simples, mas infalível.

  Já se passaram alguns dias desde que terminei de ler O último adeus. Entretanto li uma obra juvenil e estou no início de uma mais adulta. Contudo, ainda não saí deLoeanneth, ainda não fechei as portas da mansão da família Edevane. Não consegui ainda dizer um último adeus àquelas paredes quase centenárias e a todos que as habitaram ou as conheceram. Tenho saudades de Sadie, de Bertie, de todos os membros da família Edevane, mas a quem me está a custar mais dizer esse último adeus é a Eleanor, a mulher que criou três filhas enquanto o marido lutava pela pátria na Primeira Grande Guerra, que manteve a promessa que lhe fez, que se viu de um momento para o outro “órfã” do seu menino pequenino e que me conquistou por isto e por tantas outras facetas que não posso e nem devo revelar.

Kate Morton voltou a fazê-lo. Voltou a arrebatar-me, voltou a chocalhar o meu mundinho das leituras, voltou a deixar-me sedenta de mais histórias como muito poucos como ela sabem oferecer-me! Tão, mas tão bom que foi!

Rogo-vos – experimentem, leiam-na! Garanto-vos que vale a pena!

NOTA – 10/10

Sinopse

O melhor romance da autora reconhecida mundialmente pelo público e a crítica.

Numa majestosa casa de campo inglesa um miúdo desaparece sem deixar rasto. Setenta anos depois Sadie Sparrow, de visita a casa de seu avô, encontra uma mansão abandonada. Espreita através de uma janela e sente que alguma coisa terrível aconteceu nessa casa.

in O sabor dos meus livros