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Opinião

O indiozinho que se apagava

Saíra era pequenino, pequenino e magro para seus dez anos, bem menor que seus irmãos da mesma idade. Ele era índio Kayapó, fora adotado aos dois anos e desde então vivia na cidade grande. Seu pai batia nele toda vez que seus irmãos aprontavam alguma peraltice e lhe apontavam como autor do crime. E como seus irmãos eram muito arteiros e maldosos e o pai acreditava integralmente neles, Saíra apanhava muito. Sua mãe não se importava com nada, muito menos com ele.

Saíra foi adotado pouco depois que Teçá, seu pai verdadeiro, tendo viajado com ele para Cuiabá, morreu atropelado por automóvel. Saíra ficou muito machucado no acidente, mas sobreviveu.

Ele não entendia porque não o levaram de volta para sua tribo, da qual ele só sabia bem pouco, através da escola de brancos que frequentava. E também ficava intrigado com o fato de sua nova família o tratar tão mal. Então porque o adotaram se não gostavam dele?

Mas quando crescesse mais, pensava, iria embora procurar seus parentes na floresta, para livrar-se daquela gente má.

Uma decisão dos seus pais veio de encontro aos seus anseios. Eles decidiram passar dez dias das férias escolares num hotel no meio da mata, nas margens do rio Madeira. Saíra viu ali a sua grande chance. Quando estivessem no hotel, num descuido dos pais – afinal não se importavam mesmo com ele – fugiria para a mata e começaria a sua procura pela tribo dos Kayapós.

E assim fez, na primeira manhã depois que chegaram ao hotel. Encheu um litro com água, pegou algumas fatias de pão e enquanto os pais e seus irmãos estavam visitando o orquidário, saiu sem que ninguém percebesse e embrenhou-se na mata.

Andou, andou e andou, sempre seguindo próximo das trilhas já percorridas por gente. Lera certa vez que quando alguém se perde numa mata, deve procurar trilhas com marcas, pegadas ou outros vestígios deixados pelas pessoas que ali passaram. Depois, era só seguir até encontrar alguém ou algum lugar habitado. Mas o seu objetivo agora era encontrar os índios Kayapós. Viu pássaros de várias espécies, répteis, pequenos mamíferos, flores e árvores com diversos tipos de frutos.

Pensou como faria se encontrasse a temível onça pintada, mas não teve medo. Umas duas horas depois sentiu fome e sede e parou para comer uma fatia de pão e beber água. Será que seus pais já haviam sentido sua falta? Será que já o estavam procurando? E prosseguiu seu caminho.

Já era bem tarde, mais de meio-dia, quando viu uma árvore enorme, imponente, que se destacava entre todas as outras, com sua bela copa sobressaindo no céu. Saíra ficou fascinado com aquela majestosa árvore e resolveu escalar seu tronco através dos grossos cipós que o rodeavam. Lá de cima, talvez conseguisse ver a aldeia dos Kayapós.

Magrinho, leve e ágil, em dez minutos estava sentado num galho da copa, e viu que aquela árvore era diferente: seu tronco era totalmente oco, por onde a luz do sol se infiltrava. Saíra olhava por cima das copas das outras árvores toda aquela vastidão verde. Viu uma estrada bem longe e uma clareira com uma construção que reconheceu como o hotel onde sua família estava hospedada. Então ainda não se distanciara muito, pensou.

Fez um giro completo com o olhar e não viu mais nada além de árvores, pássaros e um avião que passava bem alto. Nada de índios, nada da sua aldeia. Resolveu descer e continuar procurando.

Quando agarrou um cipó para começar a descida, escorregou na casca úmida da árvore e caiu, mas para dentro do enorme oco do tronco, agarrando-se logo nos cipós antes que caísse totalmente e ficasse morto ou agonizando lá no fundo, por dentro da árvore, perto da raízes.

Mas percebeu que a claridade continuava tronco adentro, como se houvesse lá embaixo uma porta. Curioso, resolveu continuar descendo, agarrado aos cipós. O interior daquela enorme árvore era tão iluminado quanto um dia de sol. Parecia que um feixe de luz entrava pela copa e se encontrava com outro que vinha das raízes. Chegou ao fundo, passando pelas enormes raízes que se espalhavam pelos cantos e pisou no solo subterrâneo, descobrindo ali um vale, como se fosse uma outra mata, repleta de enormes árvores como aquela por onde ele desceu.

Saíra ficou maravilhado. Então existia outro mundo abaixo daquele onde todos viviam? O que mais haveria por ali? Como a descida o deixou cansado, retirou da mochila nas costas a última fatia de pão e o resto da água, comeu, bebeu e foi andando e admirando aquele lindo vale de árvores, flores, pássaros e borboletas. Atravessou um riacho de águas rasas e límpidas e parou debaixo de uma frondosa árvore. Saíra viu que havia na árvore pequenos sulcos por onde escorria uma seiva leitosa que se ia acumulando e formando pequenas bolas no chão. Algumas daquelas bolas já estavam bem secas e enrijecidas. Saíra pegou uma delas e instintivamente esfregou-a no pulso. Assustou-se. Aquela parte do pulso onde esfregara a bola de seiva sumiu, como se houvesse entre a sua mão e o resto do braço um intervalo. Soltou a bola, de olhos arregalados, e passou os dedos da outra mão onde antes havia pulso. Ah! Que bom! O pulso estava ali, brincando de se esconder. Esfregou a pele invisível e nada do pulso reaparecer. Sem pensar, correu até o riacho e enfiou o braço inteiro na água. Quando o retirou viu, aliviado, que o braço agora estava inteiro como antes.

Ficou meditando sobre aquele estranho fato por alguns instantes, depois voltou até a árvore, recolheu uma daquelas bolas emborrachadas, hesitou por alguns instantes e logo a esfregou de leve desde o pé até acima do joelho. Pronto! Agora ele poderia ser confundido com um indiozinho saci.

E na sua infantil curiosidade, Saíra esqueceu do tempo, enquanto brincava fazendo no corpo experimentos com a bola de seiva. Se num instante perdia as mãos, no outro tinha um furo na barriga, outra vez sumia inteiro e ressurgia depois de mergulhar no riacho. Quando percebeu já Guaraci, o sol, se preparava para dormir e decidiu voltar pelo tronco oco da grande árvore. Agora ele sabia que tinha um mundo onde poderia voltar depois e descobrir tudo o que havia nele. Antes recolheu algumas bolas de seiva, guardou-as na mochila e bebeu água do riacho. Desta vez demorou muito para escalar o tronco por dentro e chegar até a copa da árvore gigante. Olhou novamente ao redor, viu outra vez o hotel lá longe e desceu pelos cipós pelo lado de fora da árvore. E recomeçou a andar.

De repente ouviu vozes e antes que pudesse se esconder, quatro homens o cercaram.

— Ah! Aqui está o menino fujão! Vamos te levar para o hotel. Teu pai está uma arara, menino.

E o pegaram fortemente pelo braço, retornando pela trilha.

Quando chegaram ao hotel já era noite e seu pai, sua mãe e seus dois irmãos o esperavam na portaria. No lugar de um abraço, recebeu do pai um forte tapa na cabeça e um safanão, seguidos de uma enxurrada de palavrões. Saíra entrou no saguão e correu escada acima em direção do seu quarto e sua família subiu atrás, com os meninos caçoando dele. Trancou a porta e seu pai começou a esmurrá-la com força. Saíra encolheu-se num canto do quarto e de repente teve uma ideia. Pegou uma bola de seiva e a esfregou por todo o rosto, os cabelos e o pescoço. Olhou-se no espelho do criado mudo e gostou do que viu… ou melhor, do que não viu. Foi até a porta que continuava sendo esmurrada e abriu-a de um golpe.

Com seus olhos que ninguém via Saíra viu oito olhos arregalados, em seguida ouviu os gritos de pavor. Depois presenciou a correria desabalada escada abaixo do seu pai, sua mãe e seus irmãos gêmeos, todos caindo pelos degraus, atropelando-se até chegar ao saguão e sair como loucos pela porta do hotel. Ouviu-se o ronco do motor de um carro saindo em disparada. Bolsas, malas e outros pertences ficaram para trás e nunca mais Saíra ouviu falar daquela família.

Sem entender toda aquela confusão, alguns funcionários do hotel foram ao quarto e ficaram gelados de pavor ao ver um menino da cintura pra baixo, com dois braços soltos do lado do corpo, pois Saíra passara a bola de seiva também por todo o tronco até abaixo do umbigo. Os funcionários também correram feito loucos e sumiram. Naquela noite Saíra dormiu tranquilamente, sem que ninguém fosse ao quarto. Também se fossem não o veriam. Antes se alimentou de frutas, queijos, doces, sucos e tudo o que fora colocado para sua família no quarto. Acordou bem cedo, comeu de novo, encheu a mochila de comida, suco e água e saiu tranquilamente.

Ninguém o viu, por dois motivos: ele estava invisível e o hotel estava completamente abandonado. Também, se alguém olhasse na sua direção pensaria estar louco, pois somente veria uma mochila flutuando sozinha.

Saíra era índio e como tal não conhecia o medo como os brancos o conhecem, aquele medo bobo de qualquer coisa. Apesar de viver longe da sua tribo, havia nele a força e o destemor do sangue Kayapó. Assim, embrenhou-se novamente na mata, onde caminhou e procurou por quatro dias. Dormia nos grossos galhos de árvore, próximo das copas e quando acabou sua comida alimentava-se de frutos silvestres. Apesar da seca que castigava toda aquela região, ainda havia água nos rios que serpenteavam pela mata e ele continuava brincando de sumir e reaparecer, banhando-se nos regatos e passando a bola de seiva por todo o corpo. Enquanto andava pela mata e à noite para dormir Saíra ficava invisível, assim se protegia de algum animal perigoso que pudesse surgir de repente.

Mas há muitos dias, talvez há muito tempo mesmo não chovia.

Um dia Saíra ouviu ruído de tambores e canto, bem longe. Talvez fossem os índios Kayapós fazendo a dança da chuva. Afinal aproximava-se a colheita do milho que sofria com toda aquela seca.

Saíra passou calmamente a bola de seiva pelo corpo inteiro, até sobre o pequeno calção que usava. A sua camisa e os sapatos ficaram sujos, rasgados e perdidos pela mata. Totalmente invisível, esquecendo a mochila do lado de uma moita, seguiu orientando-se pelos sons que ouvia, sons cuja intensidade ia aumentando. Uma hora depois avistou uma grande clareira com a aldeia repleta de ocas. No centro da taba, um grupo de índios realizava a dança da chuva, ritual cujo objetivo é invocar os espíritos a trazer fertilidade para a terra, para ter colheita farta e afugentar os espíritos que vagam perdidos pelo mundo. Aquela dança cadenciada repleta de gestuais, acompanhada pelos sons das flautas, tambores e chocalhos deixou Saíra tão feliz que ele sem perceber foi caminhando na direção dos índios, passando pelo meio deles e postando-se ao centro da roda, cada vez mais admirado.

Então começaram a cair os primeiros pingos da chuva e os índios se exultaram ainda mais na dança. Os pingos aumentaram rapidamente, encharcando o corpo de Saíra, que, sob os olhares estupefatos dos índios, foi tornando-se novamente visível. Primeiro foi surgindo sua cabeça, que molhou primeiro, seguida do pescoço, braços, tórax, cintura, pernas, pés. Os índios dançarinos, agora em companhia de todos os outros índios da tribo, já não dançavam, enfeitiçados pela aparição do menininho índio. Obra de Amanaci, que presenteava a tribo com aquele delgado menino-chuva, sinal vivo de fartura para toda a comunidade indígena.

Desde então Saíra incorporou-se à sua gente, sendo venerado como herói e recebendo tratamento digno de rei. Passou a ser chamado de Amandy, por conta da sua aparição durante a dança da chuva. E desde aquele dia, até quando cresceu e tornou-se guerreiro adulto, Saíra Amandy nunca mais lembrou da sua mochila com as bolas de seiva nem daquela enorme árvore de tronco oco e iluminado que levava para o lindo vale verde.

Completamente feliz com sua vida de índio, Saíra Amandy agora era mestre na pesca, na caça e nunca mais precisou se apagar, ficar invisível para se defender das maldades dos brancos, também jamais se lembrou daquele homem que batia nele sem motivo, dos meninos gêmeos que riam dele e da mulher que dizia ser sua mãe mas para quem tanto fazia se ele existia ou não.