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“O czar do amor e do tecno” de Anthony Marra

Ficha técnica

Título – O Czar do amor e do tecno

Autor – Anthony Marra

Editora – Teorema

Páginas – 384

Opinião

Terminei de ler este livro há praticamente duas semanas e só agora é que encontrei um bocadinho de tempo para tentar escrever a correspondente opinião e sobretudo tentar fazer justiça a uma leitura soberba, mas que, afirmo já, teria saboreado com mais prazer se a tivesse feito numa altura em que não estivesse tão afundada em trabalho.

Mas adiante. Comecemos pelos aspectos mais práticos e mais óbvios.

Esta obra de um autor bem mais novo do que eu (!) está dividida em três partes – o lado A e o lado B (como se de uma cassete se tratasse e esta divisão/semelhança são intencionais), intervalados por uma parte que dá título ao livro. Nas mesmas atravessamos um período bastante longo da História da URSS e da Federação Russa e acompanhamos uma panóplia de personagens que, conjuntamente com objetos ou acontecimentos, fazem a interligação entre as referidas partes e as subpartes que as dividem.

As personagens são gente normal, vulgar, uma ou outra com um lugar mais destacado na sociedade. Iniciamos a leitura em Leninegrado, em 1937 e o protagonista é Roman Osipovich Markin, que trabalha no Departamento de Agitação e Propaganda do Partido, apagando de todos os documentos visuais (fotos, pinturas, imagens…) os rostos de todos aqueles que são considerados inimigos do regime. Terminamos a leitura no espaço sideral, num ano desconhecido e desta vez o protagonista é Kolya, um ex-combatente da guerra da Chechénia que poderá finalmente ter a oportunidade de ouvir uma cassete que lhe gravou o seu irmão mais novo.

Entre um capítulo e outro, entre o que abre a obra e o que o encerra passam-se mais de setenta anos, deambulámos pelo regime comunista de Estaline, acompanhamos o seu derrube, a Perestroika de Gorbatchev e ficámos estupefactos (pelos menos eu fiquei) ao constatar que Vladimir Putin está no poder desde 2000. Desde 2000! Percorremos as ruas de Leninegrado/São Petersburgo, de Grozni, a capital chechena e Kirovsk, no extremo norte, perto de terras finlandesas e compreendemos as idiossincrasias de um povo subjugado por uma ditadura que pareceu e parece eterna…

O tom global da narrativa é de uma crítica mordaz, de ironia e de extensos exemplos do que foi e é feito em nome de um regime supostamente do e para o povo e de uma economia que tem que prosperar a todo o custo, nem que para isso os habitantes de toda uma cidade tenham que morrer ou estejam condenados a morrer de toda a espécie de doenças provocadas pelo fumo e derrames tóxicos provenientes da extração de níquel.

O tom mais íntimo, mais subliminar e que porventura pode não chegar a todos os leitores (desconfio que não chegou, por exemplo, ao meu marido, que leu – como é costume – a obra primeiro do que eu) está visceralmente ligado às personagens, às suas vidas e àquilo que as une umas com as outras. Criei laços imediatos com Roman (apesar daquilo que era obrigado a fazer para a manutenção e “saúde” do regime), com Kolya (outro Kolya que iluminou a minha vida!) e a sua demanda amorosa, com o seu irmão Alexei, com a dor de “filho amputado de pai” de Vladimir e com a sua própria parentalidade e com a história sofrida de Nadya e de Ruzlan. Todos eles trouxeram uma luz muito própria à narrativa e permitiram que a sua leitura fosse fluída, intensa, tocante e saísse quase incólume perante factores externos (tais como o meu cansaço, o acumular assustador de trabalho ou níveis inabituais de desconcentração) ou factores internos – a divisão em capítulos protagonizados por personagens à partida muito distintas e sem nada que as relacionasse e ambientados em tempos e espaços distantes uns dos outros.

Ao reler aquilo que escrevi até aqui, continuo com a desconfortável sensação de que não estou a fazer aquilo a que me propus no início da opinião – fazer justiça a uma obra excelente. Tenho consciência de que a mesma não se destina a qualquer leitor e isto sem preconceito algum da minha parte. Mas, caramba, queria mesmo muito que aqueles que partilham dos meus gostos literários lhe dessem uma oportunidade e percebessem por si mesmos o quanto Anthony Marra escreve maravilhosamente bem, o quanto há de pesquisa exaustiva nas páginas de O czar do amor e do tecno, que “fechassem os olhos” ao seu título aparentemente pouco feliz e à sua capa nada bem conseguida e entrassem na vida de personagens muito bem concebidas e que são capazes de arrancar do leitor sorrisos, lágrimas, compaixão, ternura e acenos de mútuo entendimento. Arrisquem, pois vale a pena! Não é uma leitura muito fácil, nem dá nada ao leitor de bandeja, mas fá-lo crescer e ganhar em conhecimento histórico, geográfico e sobretudo humano.

Termino deixando uma citação que não vou esquecer, de tão verdadeira que ela é para os regimes totalitários e que ainda abundam em muitos locais do nosso mundo em 2018:

“… Um dia perceberão que aquilo que os torna vulgares é precisamente o que os mantém vivos.” (pág. 103)

NOTA – 09/10

Sinopse

Em 1937, um promissor pintor de Leninegrado vê-se reduzido à tarefa ingrata de “apagar”, de pinturas e fotografias, os dissidentes do regime soviético. Entre os inúmeros rostos que faz desaparecer, está o do seu próprio irmão, condenado à morte. Na atualidade, uma historiadora de arte dedica-se a estudar o mistério que se esconde na obra desse censor. Nas centenas de imagens que alterou, ele introduziu obsessivamente um rosto. Quem foi essa figura anónima, a um tempo dissimulada e omnipresente na História da Rússia?

O segredo do criador de rostos atravessa décadas e fronteiras e confunde-se com a memória do país. Cruza as trajectórias de uma bailarina caída em desgraça, espiões polacos, mercenários, um aprendiz de mendigo, uma beldade siberiana, e até um lobo. E como pano de fundo, uma cidade com um lago de mercúrio, um céu sem estrelas e uma floresta de plástico. Um livro profundamente original, que nos leva de S. Petersburgo aos confins da Sibéria e à Chechénia, e consolida Anthony Marra como um dos jovens escritores americanos mais aclamados da atualidade. 

in O sabor dos meus livros