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O Brasil tem um enorme passado pela frente

“O Brasil tem um enorme passado pela frente”

Millôr Fernandes

Há países que lutam pela liberdade e há aqueles que a querem destruir. Há países por onde passei que me enchem a alma de orgulho e outros de pena. Países que me ensinaram. Que fizeram e fazem parte da minha história. A Áustria foi a minha primeira decepção. O Brasil é a minha esperança.

Feito de contradições, de lógicas políticas por vezes incompreensíveis, guardo do Brasil a memória de um povo trabalhador, feliz e determinado. Lembro-me, depois das aulas, de irmos tomar um “chopinho” e de dançar, dançar e dançar. Parece que o Brasil nasceu irrequieto. Com o som de qualquer coisa se faz música e logo os pés, quase que por reflexo, começam a mexer-se num impaciente desejo de dançar. Era esse o aflitivo momento em que eu sabia que alguém me ia puxar para a árdua tarefa de me ensinar o samba.

O movimento dos corpos era sempre superior à possibilidade da conversa calada pela música. Um povo liberto de preconceitos, dizia eu para mim mesma. Mas vigiados pela sorte das carrancas brasileiras. Duas delas guardam a minha casa. Que protejam agora o Brasil dos “maus espíritos”. A praça de Petrolina, em Pernambuco, enchia-se de vida a partir da tarde de sexta-feira e só se aquietava no domingo. Não havia categorias sociais. Todos dançavam. É assim que recordo o Brasil. Uma dedicação ao trabalho e ao estudo nos dias certos e uma vontade imensa de libertação pelo compasso do ritmo africano nos dias de descanso.

Senti no Brasil, nos meus alunos e amigos que por lá me acompanharam, uma democracia ganha. Uma democracia de que nenhum deles queria abrir mão precisamente por saberem que, como disse Millôr Fernandes, “o Brasil tem um enorme passado pela frente”. O colonialismo, o “coronelismo”, a ditadura, a opressão, a pobreza e a desesperança são fantasmas presentes na cultura brasileira e não podem ganhar. A fé na democracia e na decência foram sempre maiores do que a imoralidade do autoritarismo. Na verdade, o embate das eleições de 7 de Outubro não é apenas entre Bolsonaro e Haddad (há ainda Ciro que pode criar pontes). Entre a direita e a esquerda. Entre o fascismo e a social-democracia. Entre os senhores e os escravos. É uma decisão sobre a Liberdade e a Justiça. Sobre a nossa identidade como humanos.

E somos tantos na diversidade. Somos feitos de tanta diferença que nenhum déspota poderá matar isso. Eu, outro, branco, negro, dançarino, poeta, alto, baixo, homem, mulher, olho azul, castanho ou verde, cabelo liso ou frisado, crime e barbaridade, homo, hétero, trans, gordo, magro, favelas, comunidades, lama, asfalto, religioso e profano, cor e luz. Como apagarás, oh, tirania(!) as marcas com que nasceu este povo? Não há nada mais podre do que apagar a identidade do outro, em última análise pela morte. Já não há troncos que sirvam para chibatear, pois um de nós irá em seu amparo. Não há autocracia que ganhe o amor que temos pelo outro.

O Brasil é a minha esperança. É a minha esperança num mundo em que a minha Europa ergue muros guardados por militares. Li algures que há quem pense que o Brasil “é uma grande fazenda”. Não é. Que saiam à rua sem medo e honrem os mortos da ditadura militar e aqueles homens e mulheres que todos os dias lutam para que os mais vazios possam falar porque a democracia construída assim o permite. Nós somos diferentes. Não calamos vozes, mas não vamos permitir que calem a nossa. Não ensinamos ninguém a votar.