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Opinião

Desmistificando

Num tempo onde a contra informação e as falsas verdades estão na moda, mais do que nunca, é preciso medir as palavras e ter em atenção a interpretação que daí poderá advir. Apesar disso, se há algo que, em contraste, também é extremamente perigoso, é o politicamente correto. Pessoalmente, não me revejo minimamente naquela tentativa muito em voga de agradar a tudo, a todos e aos outros. Essa falsa simpatia é, muitas vezes, tão matreira como o populismo daqueles que extremam a opinião para agradar às mais revoltadas parcelas da sociedade.

Posto isto, não terei nenhum problema em afirmar que eu aprecio bastante estereótipos. Gosto. Poderá não ser correto, poderá ser injusto para muitos, mas acho que dá uma certa beleza à interpretação. Na verdade, a interpretação por si só será logo um convite aos estereótipos de cada um.

Apesar de não conhecer afincadamente mais nenhuma cultura como a portuguesa, se me perguntassem onde nasceram os estereótipos, não teria grandes dúvidas em responder de pronto, em Portugal. Sendo muito concreto, os portugueses têm estereótipos para tudo, curiosamente, esta frase já é um estereótipo em si mesma. Começar uma frase com a referência a um povo, será logo um presságio de que estará para vir aí alguma conclusão precipitada e, mais do que isso, caricaturada.

Senão, vejamos. Acho que será unânime considerar que todos nós já ouvimos algum destes exemplos, ou todos, algures saído da boca de um português. Comecemos com os espanhóis. Esses irmãos matreiros que há séculos nos querem anexar. Passemos para os franceses que só olham para si mesmos e apenas querem portugueses para mandarem neles, sem esquecer que só tomam banho em perfume. Já para não referir os alemães, ai aqueles alemães, todos uns arrogantes, sem exceção, e sempre com a mania que são donos da Europa. Nem valerá a pena falar dos ingleses. Sempre se fizeram passar por nossos amigos, mas, lá no fundo, todos sabemos que, quando precisarmos, eles não irão aparecer. E pronto, não querendo ir mais longe, mas, alguém já viu algum funeral de um chinês? Não. Eles são todos iguais, por isso, trocam de lugar uns com os outros e ninguém dá por ela.

Depois de referir que aprecio bastante um bom e simples estereótipo, deverá estar a pensar que concordo com todos estes que acabei de referir. Não poderia estar mais errado! Na verdade, a graça de um bom estereótipo é precisamente essa. A desmistificação. Poucas coisas no mundo serão mais saborosas do que ter razão sozinho. Lembro-me de algumas, sim. Mas convenhamos que qualquer pessoa sente um genuíno prazer em ter razão contra a multidão.

Ao longo da minha estadia aqui no Luxemburgo, correndo o risco de não estar a ser matematicamente preciso, diria que em cada dez pessoas com quem contactei nove disseram variantes da frase “É um bom país, mas não há grande coisa para fazer”.

Quase 40 dias após a minha chegada, sinto-me tentado a dizer que essa ideia de que no Luxemburgo não se faz nada de especial foi claramente alterada. Até então, penso que, se em algum fim-de-semana fiquei em casa, foi por opção própria e não por falta delas. E não me refiro a típicas festas Universitárias ou de Erasmus que, todos sabemos, vão acontecendo regularmente numa realidade paralela à restante sociedade. Refiro-me mesmo a festas tradicionais, a monumentos, eventos, entre muitas outras coisas que preenchem a agenda do país.

Começando pelos primeiros, parece-me a mim pelo tempo que já aqui estive, que há sempre algum pretexto para assinalar uma data. Seja ela de extrema relevância ou não. Esteja um dia radiante ou, mais provável, um dia cinzento e chuvoso e, neste caso, o mau tempo não é um estereótipo. Desde que cá estou, deparei-me desde logo com o típico Carnaval. No entanto, por cá, não se fica apenas pelo típico dia. Aqui, o Carnaval tem aquilo que eu diria ser uma “after party”. Ao longo do mês, consoante a cidade, vai-se festejando com os típicos desfiles e máscaras a condizer. Começou no início do mês e ainda não deu sinais de terminar.

Também a meio da minha, ainda curta, estadia, teve lugar o Brugbrennen. Este foi um daqueles eventos que não tive oportunidade de ir mas, segundo consta, consiste numa festa pagã na qual se queima o Inverno. Apesar da ideia ser engraçada, infelizmente, não parece ter surtido muito efeito. No mesmo fim-de-semana, teve lugar o Festival das Migrações. Outro evento extremamente interessante e bem conseguido que celebra a multiculturalidade e a aceitação das diversas culturas no mesmo espaço, literalmente.

Quanto a pontos de interesse, esses, vão muito além da belíssima Cidade do Luxemburgo. Ainda não tive a oportunidade de visitar o Castelo de Vianden, os lagos de Esch-sur-Sûre, ou a bonita região de Mullerthal mas, por outro lado, já descobri um dos mais interessantes museus acerca da Segunda Guerra Mundial em Diekirch.

Por fim, se por algum motivo não existir algo para fazer num fim-de-semana no Luxemburgo, num raio de duas horas, existirão certamente inúmeros pontos de interesse nos países adjacentes. Para além da parte comercial e financeira, o lazer também tem outras vantagens no centro da Europa.

Depois do tempo passado, sinto que desmistifiquei um estereótipo que, aqui e ali, muita gente tem acerca deste pequeno país. Apesar de geograficamente pequeno, como que por magia, parece bem maior quando nos entregamos à tentativa de o conhecer.