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A burgomestre da cidade mais portuguesa do Luxemburgo chama-se Silva

A nova burgomestre de Larochette, filha de imigrantes cabo-verdianos no Luxemburgo Natalie Silva disse à Lusa que está orgulhosa por ser “a primeira mulher burgomestre” daquela autarquia que é conhecida como “a mais portuguesa do Luxemburgo”.

Satisfeita por ser considerada “um exemplo” para a diáspora cabo-verdiana, recordou que as mulheres representam apenas um quarto dos eleitos no Luxemburgo.

Natalie Silva é conselheira política do partido cristão-social (CSV) desde 2004 e era vereadora em Larochette desde as eleições anteriores, em 2011.

Nos últimos seis anos, foi responsável pela pasta da educação em Larochette, onde a maioria dos habitantes são portugueses, e defende a importância do ensino da língua materna.

Em entrevista à agência Lusa disse que conseguiu chegar até à liderança do município graças à aposta dos pais na educação.

Os pais de Natalie Silva, naturais de Santo Antão, chegaram ao Luxemburgo em 1971, tendo fixado residência em Ettelbruck, onde vive uma importante comunidade cabo-verdiana.

“O meu pai era operário na fábrica de pneus da Goodyear e a minha mãe era empregada de limpeza na Câmara Municipal de Ettelbruck. Desde pequena, ia lá muitas vezes com a minha mãe e via o grande gabinete do burgomestre, que me impressionava muito”, contou Natalie Silva à Lusa.

“Estive sempre ligada à política”, brincou a autarca, eleita nas eleições municipais luxemburguesas de 8 de outubro.

Agora, é Natalie Silva, de 37 anos, quem vai ocupar o gabinete de burgomestre, mas em Larochette, onde vive há dez anos, e a autarca reconhece a importância do apoio dos pais para chegar até aqui, destacando a aposta que fizeram na educação das três filhas.

“Para os meus pais era muito importante que nós fizéssemos os trabalhos de casa. Lembro-me que chegava a casa da escola e a primeira coisa que fazia, antes mesmo de poder comer, eram os trabalhos de casa”, recordou.

“A minha mãe sentava-se ao nosso lado, e eu achava que ela sabia falar todas as línguas, alemão e tudo. Só muito mais tarde percebi que ela não percebia as línguas, mas só o facto de estar ao nosso lado já era muito importante”, contou Natalie Silva, licenciada em Relações Públicas, em Bruxelas.

Natalie Silva já nasceu com nacionalidade luxemburguesa, mas apesar disso, em criança, temia que a família fosse obrigada a regressar a Cabo Verde.

“Quando eu era pequena, tinha muito medo que houvesse uma guerra e que tivéssemos de voltar para Cabo Verde, porque a minha mãe dizia que lá havia muita pobreza, e eu fazia tudo por ter boas notas. Tive sempre medo de ficar na miséria”, recordou.

A burgomestre daquela que é considerada a “localidade mais portuguesa do Luxemburgo” disse à Lusa que percebe “praticamente tudo em português,” mas prefere falar em francês, admitindo que mistura o idioma com o crioulo cabo-verdiano.

“As pessoas aqui em Larochette vêm felicitar-me e começam a falar-me em francês, e eu digo-lhes que podem falar em português, mas que eu respondo em francês”, explicou. “Tenho pensado que se calhar era bom fazer um pequeno curso com as bases de português”, acrescentou.

A autarca disse à Lusa que quer manter a rotina habitual em Larochette, que inclui almoçar num popular restaurante português da localidade à quarta-feira, dia da reunião semanal do Executivo camarário.

“É sempre às quartas-feiras, porque o prato do dia é dourada, que o meu filho adora, e gostamos muito de lá ir, e ao fim de semana também há frango no churrasco”, contou.

Desde que foi eleita, a autarca tem estado a receber mensagens de apoio da comunidade cabo-verdiana radicada “em praticamente todo o mundo”, da Holanda aos Estados Unidos.

“Dizem-me que sou um bom exemplo para a comunidade cabo-verdiana e que estão orgulhosos de mim”, contou à Lusa. “Eu encorajo-os a participar nas associações onde os filhos praticam desporto, na escola, na comunidade onde vivem, para que se veja que estão bem integrados e que se interessam pelo país onde vivem”.

E dá um exemplo de pequenos gestos que podem fazer a diferença: “Eu gosto de fazer um bolo para levar ao clube [de basquetebol] onde anda o meu filho: é apenas uma hora do meu tempo e mostra que valorizo o trabalho que eles fazem”.

A localidade de Larochette aderiu ao projeto-piloto dos assistentes de língua portuguesa, a funcionar em duas dezenas de escolas do país, uma iniciativa do Governo dos dois países para promover o reforço do idioma, através de atividades lúdicas no ensino pré-escolar.

“Uma criança que não sabe dizer ‘chávena’ em português não o saberá dizer em luxemburguês, francês ou alemão [as três línguas do país]. É preciso primeiro fortalecer a língua materna e depois aprender uma segunda ou terceira língua”, defendeu.

Larochette tem 948 habitantes com passaporte português e apenas 877 luxemburgueses, mas nas últimas eleições municipais só estavam inscritos para votar 173 portugueses.