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Barreiro: a família transmontana que venceu na Florida

Aos 29 anos, Catarina gere uma das cinco cimenteiras do pai, Américo Barreiro, um transmontano que chegou a Miami há 40 anos e do nada construiu um império. Entre os seus clientes, contam-se alguns milionários americanos e o próprio estado da Florida, mas continua a ser a família – pai, mãe e dois filhos – a tomar conta dos negócios e a assumir diretamente a relação com os que escolhem o grupo Barreiro, revela o Diário de Notícias.

Para os mais de cem empregados da Barreiro Concrete (o grupo completo tem mais do dobro), presente na maioria dos locais de construção da vibrante Miami e de onde saem em média três camiões de betão a cada cinco minutos, não há nada de estranho no facto de receberem ordens da única mulher que trabalha na cimenteira de Homestead, a cerca de meia hora de carro da baixa de Miami.

“É engraçado pensar que alguns deles chegaram a mudar-me as fraldas”, diz Catarina Barreiro, filha do dono da empresa, que não tem a menor dúvida de ter escolhido o caminho certo: “Adoro o que faço. Adoro trabalhar aqui.” Explica-me o seu percurso em inglês – apesar de entender tudo de português, o espanhol é a sua segunda língua, como é natural para quem cresceu numa região plena de emigrantes sul-americanos. “Conheço imensas pessoas de sucesso que construíram verdadeiros impérios e falam um inglês terrível. É uma característica aqui de Miami, é uma espécie de melting pot de culturas; às vezes parece que há de tudo menos americanos. E por isso é-lhe difícil falar em português, se bem que às vezes também troca expressões ao contrário – “digo falar em vez de hablar e só me apercebo do lapso pelo silêncio do outro lado”.

A três meses de chegar aos 30 anos – a mesma idade da construtora que foi a semente dos negócios do pai em Miami – Catarina gere, com o irmão, Abel (engenheiro, de 34 anos), as cinco cimenteiras da família. Com supervisão do pai, Américo, naturalmente. Mas os estudos que fez apontavam numa direção bem distinta da que acabou por seguir. “Eu estudei Direito e escolhi Ciência Política e Gestão de Construção como especialidades, mas quando estava a fazer o curso houve uma altura em que, para entender um único caso, tive de estudar 17! Então percebi que ser advogada significava passar pouco tempo em tribunal e muito fechada num escritório a ler processos todos os dias – e ia detestar isso, ia ficar com o rabo quadrado!” Não era vida para Catarina, que apesar da serenidade com que fala é nitidamente uma mulher de ação, de pôr as mãos na massa, com o empenho único de quem verdadeiramente gosta do que faz.

Ri-se, diz que se apaixonou pela cimenteira quando o negócio cresceu de tal forma que os camiões (hoje aproximam-se das duas centenas) deixaram de caber nas instalações da empresa, obrigando Américo a alargá-lo a duas novas localizações, mais para o norte de Miami. E pôs a filha à frente de uma delas. “Durante um ano, eu levantava-me às 03.00 e só chegava a casa às 22.00. Havia sempre qualquer coisa a mexer, algo a acontecer.” Ainda hoje, Catarina – que, tal como o irmão, já nasceu nos Estados Unidos – é a primeira a chegar à empresa, um hábito sem dúvida herdado do pai. “Ainda hoje, ele levanta-se às 04.00 porque a construção aqui começa muito cedo, por causa do calor e do trânsito. Queremos as equipas todas na rua e prontas para trabalhar às 05.00, que é a hora a que ele chega ao escritório.”

De uma pequena aldeia junto a Montalegre (Vila Real) – onde vivia também a mulher, com quem cresceu – para os Estados Unidos, depois de uma breve passagem por França, Américo chegou a Miami em 1977 e lançou-se ao trabalho numa construtora onde ganhava cerca de quatro dólares por hora. Pouco depois, já casado – “a minha mãe tinha dois empregos: trabalhava numa fábrica à noite e cosia de dia para ganhar mais algum dinheiro” -, decidiu que iria ser o seu próprio patrão. Então lançou-se à procura de clientes, de porta em porta.