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A Lisboa da procissão da Sra. da Saúde

Lisboa já fora a cidade das dezenas largas de conventos, das inúmeras procissões, do sem fim de capelinhas e invocações. Hoje, a procissão da Sra. da Saúde é, sem dúvida, um dos pontos altos da devoção popular na cidade alfacinha, só suplantada em “festa” pelas de Sto. António. É a única grande procissão que sobreviveu à voragem da modernidade, datando, pelo menos, de 1570, quando há notícia da sua primeira realização, em sinal de agradecimento a N. Senhora num quadro de peste que assolava a urbe.

Esta é, sem dúvida, uma das zonas da cidade com uma vida mais complexa e com maiores marcas de potencial guetização. Confina com um bairro que ainda guarda no seu nome a marca islâmica, a Mouraria, e confina com outro que, tendo nome de chefe de polícia, se tornou, em tempos idos, ex libris da prostituição, o Intendente. Esta zona da cidade sempre foi de multiculturalidade na sua inevitável tensão com a normalização da vida social por parte da maioria. Coincidentemente, a actual ermida data de 1505, um ano antes da célebre matança dos judeus, a 19 de Abril de 1506, com início na Igreja de S. Domingos, a escassos metros de distância.

É aqui, neste ponto de confluência de culturas, que tem lugar esta popular manifestação de fé; num bairro onde, quer há quinhentos anos, quer hoje, uma boa parte dos moradores não é cristã. Contudo, o clima devocional sente-se em pleno. Sejam os católicos que descem das colinas, ou os forasteiros que vão ver o que se passa, muçulmanos ou hindus nas suas vestes de cores e tons garridos, ou turistas variados, todos eles estão na pele de quem reverencia. Numa multiculturalidade em que a procissão vai passar por mesquitas, sejam elas de hoje, ou memória de um tempo distante (com um aroma de caril sempre presente no ar, fruto das inúmeras lojinhas de especiarias orientais ou de comida indiana), todos são crentes nesse momento.

Amália Rodrigues, com composição de Alfredo Duarte, eternizava a vida em torno desta procissão que criava “virtude” até onde ela parecia não haver, no fado “Há festa na Mouraria”:

Há festa na Mouraria,
é dia da procissão
da senhora da saúde.
Até a Rosa Maria
da rua do Capelão
parece que tem virtude.

Naquele bairro fadista
calaram-se as guitarradas:

não se canta nesse dia,
velha tradição bairrista,
vibram no ar badaladas,
há festa na Mouraria.

Colchas ricas nas janelas,
pétalas soltas no chão.
Almas crentes, povo rude
anda a fé pelas vielas:
é dia da procissão
da senhora da saúde.

Após um curto rumor
profundo silêncio pesa:
por sobre o largo da guia
passa a Virgem no andor.
Tudo se ajoelha e reza,
até a Rosa Maria.

Como que petrificada,
em fervorosa oração,
é tal a sua atitude,
que a rosa já desfolhada
da rua do Capelão
parece que tem virtude.

Junto à velhinha ermida, hoje tornada contraforte de um questionável centro comercial que tentou reorganizar um espaço que é, por definição, de desordem, um muçulmano guineense mostra a sua grande curiosidade no formar da procissão. O cortejo começa a organizar-se. No topo segue uma escolta a cavalo da GNR, enquadrando o primeiro “andor”. Ou melhor, não é um andor em sentido estrito: é um cavalo que leva, sentada, uma figura de S. Jorge, trazida do castelo que mantém o seu nome. Sim, tal como nas mitologias pátrias antigas, S. Jorge, não sei se o que mata o dragão, se o “mata mouros”, segue à frente, a cavalo, empunhando a lança aguda pronta a ferir, relembrando que o seu nome é o grito de guerra deste país que hoje se afirma pela paz e pelo respeito.

Ironia do correr do tempo e da versatilidade dos códigos de linguagem, sem entender nada do que a figura representa, o meu companheiro de metro quadrado, islâmico, fotografa entusiasmado o “mata mouros” que é patrono centenar do Exército Português, santo que deu nome ao castelo desta cidade, conquistado, exactamente, a mouros – leia-se, muçulmanos. E, por isto, a tão forte ligação desta procissão às Forças Armadas. No correr dos andores, seguem S. Sebastião, Sto. António e, por fim, a Sra. da Saúde. Todos os andores vão sendo transportados em ombros de militares ou de confrarias que se revezam. Entre eles, não faltam as bandas de todos os ramos da Forças Armadas, incluindo da GNR.

Nesta procissão juntam-se muitas simbologias e funções. A mais esperada é a das irmandades; de facto, várias irmandades estão presentes com toda a sua paramentaria e vestes, destaque social, ostentação de um espaço significativo que foi herdado de séculos de tradições familiares, de lugares sociais mantidos de geração em geração. Estar presente, com lugar definido, reservado, no corpo da procissão, é imagem de um status, de uma representatividade. Com ar mais ou menos solene, debaixo de um sol abrasador, cada Irmão vive a sua fé e cumpre a sua função da melhor forma. Aliás, se a zona da cidade é a dos contrastes entre simbologias, usos e costumes, a meio da Av. Almirante Reis, três indianos distribuem gratuitamente águas a todos os fiéis devotos. São seis carrinhos de supermercado, cheios, que Irmãos, mesários, clérigos, plebe, recebem fraternalmente da mão de um hindu – uma miraculosa garrafinha de uma água que não hesitariam em apelidar de “água da vida”, tal era o sol abrasador.

Na cauda da procissão, logo a seguir aos clérigos, abrindo a coluna popular, segue o Presidente da República, devoto católico, habitual participante nesta procissão, e toda a Câmara em peso, do seu Presidente a vereadores, e depois mais entidades civis e militares. As gentes que vão ver passar a procissão, que se avolumam nos passeios guardados para deixar passar os andores, as confrarias, as bandas e as deputações, deixam o Presidente da República quase imune ao seu lugar institucional e popularidade, deixando-o ao significativo recato que se pede a um crente e não apenas a um representante. Todos sabem que ali ele é crente; não é apenas crente, mas não se corre para os seus braços a pedir uma selfie ou muto menos se grita o sue nome, pedindo um olhar.

Com uma devoção intensa, a mole imensa de gente que segue a procissão, que nela toma lugar sem um lugar marcado como os Irmãos das Confrarias, segue o correr dos andores, rezando, entoando cânticos, passando em voz trémula as contas de um rosário empunhado juntamente com um ramo de alecrim, a pequena sacralidade da época que se leva para casa, o pequeno jardim de maio que garante que ao lar não faltará o alimento e o provento.